sábado, 27 de fevereiro de 2010

A FORMAÇÃO DO ARQUITETO.

1. A ciência da arquitetura é beneficiada com muitas disciplinas e vários conhecimentos; por seu julgamento são provadas todas as obras realizadas pelas outras artes. Ela nasce tanto da prática quanto da teoria.

2. A prática é o exercício habitual da experiência continua que se executa com as mãos em todo gênero de material necessário à representação do projeto. E a teoria pode descrever e explicar as coisas construídas na medida da habilidade e da arte. Por isso os arquitetos que, sem leitura, haviam se esforçado no exercício com as mãos, não puderam ter autoridade pelos seus trabalhos; e os que só confiaram nas teorias e nos seus conhecimentos. Parecem ter perseguido uma sombra, não a realidade. Mas aqueles que aprenderam ambas a fundo, como munidos de todas as formas, atingiram mais facilmente com autoridade, aquele que foi seu objetivo.

3. De fato, estas duas estão presentes em tudo e também na arquitetura que é demonstrada e a que demonstra. Demonstrado é o projeto sobre o qual se fala; e o que demonstra é a descrição desenvolvida com as explicações das ciências. Por isso, o arquiteto deve ter habilidade nos dois sentidos para que seja considerado como tal. E assim também é preciso que seja engenhoso e dócil à ciência. Pois nem o talento sem a disciplina, nem a disciplina sem o talento pode fazer o artista perfeito. E que seja culto, perito em desenho, versado em geometria, conheça história, tenha ouvido atentamente os filósofos, saiba música, não seja ignorante de medicina, conheça os pareceres dos juristas, conheça astronomia e as razões do céu.

4. Por isso é assim, estas são as razões. É preciso que o arquiteto tenha cultura, para que possa melhorar a memória com anotações. Depois, é preciso conhecer a ciência do desenho para que possa representar mais facilmente, com reproduções gráficas o aspecto que queira da obra. E a geometria presta vários socorros à arquitetura; primeiro ensina o uso das réguas e do compasso, com o qual são feitos mais facilmente os traçados dos edifícios nos seus terrenos e o alinhamento tanto dos níveis quanto dos prumos, com o uso de esquadros. Do mesmo modo por meio da ótica os raios de luz são levados diretamente de certas regiões dos céus aos edifícios. E pela aritmética são calculados os custos dos edifícios, são explicados os cálculos das dimensões. As questões difíceis da simetria são encontradas com métodos e explicações geométricas.

5. E é preciso que conheça história porque os arquitetos desenham mais freqüentemente em suas obras muitos ornamentos sobre quais devem responder aos que pedem explicações.

6. Quanto à filosofia, forma o arquiteto de grande espírito, e para que não seja arrogante, mas antes tratável, justo e fiel, sem avareza, o que é muito importante, porque na verdade, nenhuma obra pode ser feita sem confiança e integridade. Não seja ambicioso nem tenha a alma preocupada em receber recompensas; mas tendo boa fama, preserve com seriedade seu prestigio; e é isto que a filosofia prescreve. Além disto, a filosofia trata da natureza, que se diz em grafo physiologia é nessário estudá – las mais cuidadosamente porque apresenta muitas e variadas questões naturais. Como nas aduções das águas. Pois nos seus percursos, tanto na curva como nos planos, formam-se ares com as elevações, naturalmente, num ou noutro caso, dos quais ninguém poderá remediar os danos, exceto aquele que saiba a partir da filosofia dos princípios da natureza das coisas.

7. E é preciso conhecer a música para que conheça a teoria canônica e matemática. Deve – se harmonizar os sons dos espaços, o ritmo. As máquinas hidráulicas e outras, ninguém poderá fazer sem os princípios musicais do círculo, a quarta, a quinta, a oitava, a dupla oitava, a harmonia dos sons.

8. Até a disciplina da medicina é necessário conhecer por causa a inclinação do céu, que os gregos chamam klimata, do ar e dos lugares que são saudáveis ou insalubres e da utilidade das águas, pois sem esses princípios não se pode fazer nenhuma habitação salubre.

9. Também é preciso que conheça as leis necessárias para os edifícios de paredes comuns, para a divisória das águas pluviais e dos esgotos, das clarabóias. Da mesma forma, a adução das águas e outras questões congêneres, é preciso que sejam conhecidas dos arquitetos, a fim de que se construam os edifícios, cuidem para, feitas as obras, não deixar os processos aos pais de família e para que quando fechar os contratos possa cuidar, com prudência, tanto do contratante quanto do empreiteiro; e de fato se o contrato estiver bem escrito, será de modo que se desobrigue um do outro sem logro.

10. E com a astronomia se conhece o oriente, o ocidente, o sul, o norte, também a teoria do céu, o equinócio, o solsístico, o curso dos astros.

Marco Polião Vitruvio, Arquiteto, Século I a.C

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